Vício Inerente

Felipe Moraes

Era Sábado, o Outono enfim se anunciava e eu acabara de ter minha primeira experiência de discussão sentimental por um aplicativo de celular. Se chorei ou se sorri, o importante é que emoticons eu vivi. Palhaço de perdidas ilusões, só me restava, então, o último refúgio dos corações solitários: uma sessão de cinema à meia-noite (sei que alguns teriam outras sugestões mais bíblicas). Quase chegando ao local, me deparo com esse raro fenômeno da natureza: uma imensa horda de palmeirenses felizes. Havia algo de estranho no reino do Parque Antártica1, pois não me lembrava da última vez que havia visto um palmeirense sorrindo, se é que já havia visto.2 Seria aquele algum tipo de aviso? Deveria eu voltar pra casa, ou melhor, ir até a casa dela? Me desculpar, me atirar de joelhos naquele seu horroroso carpete bege? Afinal, não há nada melhor do que o aroma cálido dos amores perdidos e recuperados! Continuei. Na sala, éramos quinze. Quando a sessão terminou éramos apenas oito. Poderíamos ser sete, se o meu amigo da fileira da frente não tivesse saído, mas bravamente retornado. Uma figura admirável. Levantou-se no meio do filme, talvez revoltado, talvez incontinente, no sentido urinário do termo, e ao dirigir-se a saída trombou de frente com o corrimão da escada dando um giro fantástico no ar, como uma daquelas ginastas romenas dos anos oitenta. No entanto, diferente dos cretinos de pequeno caráter, em nenhum momento tentou disfarçar sua queda, ficando cerca de dois minutos em pé, exigindo explicações do corrimão por aquela patuscada. De fato, todos nós estávamos ali exigindo explicações: “alguém pode me dizer que diabos está acontecendo nessa porra de filme?!” Eis o homem.

Ah, sim, é preciso esclarecer: o filme em questão era Vício Inerente, o mais recente trabalho do roteirista e diretor Paul Thomas Anderson. Aqueles que saíram da sessão antes do seu fim já fizeram, digamos, sua crítica imanente ao filme; dentre aqueles que ficaram, resta saber se alguém se arrisca a dizer algumas palavras. Alguém? Não? Tá certo, como o Bruno, nosso editor, me pediu, vou deixar aqui um ou dois palpites, pois como diria um amigo: se acaso você pensar que aquilo mesmo que está fazendo é algo inútil, lembre-se que o Palmeiras treina todos os dias. Às armas e o barões assinalados, vamos lá. Fato: passados trinta minutos de filme, você simplesmente desiste de seguir o fio da meada. Mesmo porque fios existem vários. Num sentido imediato, trata-se de uma trama policial no estilo hard-boiled: quando a ex-namorada aparece na casa do detetive e lhe faz um pedido, você já sabe: ele se meteu numa fria. Na verdade, numa brasa, porque estamos na ensolarada Califórnia do começo dos anos 70. É uma brasa, mora? Mas será mais do que isso? Proponho que comecemos a puxar os fios.

Por que adaptar Thomas Pynchon? Matemático diletante, ex-soldado da Marinha americana e redator técnico da empresa aérea Boeing, Pynchon adquiriu certa fama, mas não muita, nos anos sessenta por escrever novelas ditas incompreensíveis. A primeira vez que ouvi falar dele foi por causa de seu livro O arco-iris da gravidade (Gravity’s Rainbow, 1973) que até hoje gera discussões homéricas do tipo: será uma obra-prima ou a maior merda já escrita? Para se ter uma ideia, no mesmo ano em que recebeu a honraria máxima no National Book Award, o livro foi recusado pelo Pulitzer por ser ilegível e totalmente “overwritten”. A crítica, no entanto, para o bem ou para o mal, nunca deixou de apontar Gravity’s Rainbow como um produto próprio da sua época, e aqui o negócio começa a ficar interessante. A obra de Pynchon é fruto de um momento onde o romance perde completamente seu lastro narrativo. Confesso que não li o livro inteiro, que é bem complexo e sem tradução (talvez também eu seja um leitor típico da minha época), mas até onde eu fui Rainbow nos mostra os meses finais da Segunda Guerra através de personagens que são capazes de discutir qualquer assunto, de metafísica à engenharia de fluidos (pensando bem, talvez não haja tanta diferença), embora sejam incapazes de perceber minimamente o contexto histórico em que vivem: os crimes de guerra (Holocausto), os interesses de uma nova Guerra (Fria) que já se anuncia, as estranhas relações entre os Nazis e as corporações do capitalismo ocidental... Tudo isso sedimentado numa forma literária que privilegia sobreposições e digressões: seus personagens falam demais, em subtramas que se avolumam demais por meio de uma escrita que é, como naquela velha canção, totalmente demais. É evidente, pois, que quando me refiro aqui a perda do lastro no romance, no sentido de sua relação com a tradição romanesca, faço eco a perda do lastro no sentido econômico, ao abandono do padrão-ouro. Justamente no imediato pós-Guerra, nos acordos de Bretton Woods, muitos países fixaram suas taxas de câmbio em relação ao dólar, a moeda da reconstrução, sendo que este se fixava num padrão-ouro de aproximadamente $35 por onça. No começo dos anos setenta, por contingências do sistema, em plena expansão, o governo do presidente Nixon decretou o fim da convertibilidade do dólar em ouro naquilo que, para muitos, é a certidão de nascimento do capitalismo tardio, caracterizado por um sistema de taxas flutuantes e de franca especulação financeira. Pynchon parece, assim, escrever sobre o vício inerente deste sistema numa forma um tanto viciosa, identificando, por sua vez, o ovo da serpente de um “mundo sem lastro’ minutos antes da sua criação, ou seja, antes mesmo da Guerra ter terminado e dos tais tratados econômicos serem firmados, o pecado original já estava lá.

Mais de trinta e cinco anos depois, temos Pynchon escrevendo sobre a era Nixon em seu romance policial Vício Inerente, de 2009. Coincidência o livro sair justamente logo após a crise de 2008? Pynchon volta aqui, como já fizera antes, para os primeiros anos de uma experiência social que moldaria a estrutura de sentimento das últimas décadas, que consolidaria o mundo como o conhecemos, o mundo sem lastro. Não tenho dúvidas de que o interesse de Anderson pelo livro de Pynchon vai nessa direção, além da forte atração do diretor pela sinuosa e inventiva (quando não irritante) forma narrativa criada pelo escritor para dar conta destas “potências terríveis”. É claro que podemos dizer que Anderson, assim como seu colega Tarantino, por uma questão geracional mesmo, tem um inegável apreço pelos anos setenta e sua moda de excessos, como fica claro num filme como Boogie Nights (1997), mas há também um esforço de Anderson, e nesse ponto seu cinema é muito mais interessante que o de Tarantino, em sondar aspectos nebulosos de uma “América, ainda inabordável”, esforço notório em filmes como Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012). Assim sendo, ao contrário de resenhas que li, não penso que a “viagem” do filme seja simplesmente “um delírio” porque o personagem principal, o detetive, aquele que nos “desvela” o caso, é um hippie maconheiro cujos estados alterados de consciência transbordam pela narrativa (embora isso possa perfeitamente acontecer). Gostaria de seguir um outro caminho aqui.

Doc Sportello, o detetive hippie, é o mais crível dos personagens num universo de tipos bisonhos: um milionário do ramo imobiliário (vou perguntar novamente: coincidência o livro sair justamente após a crise de 2008?) que, numa crise de consciência, decide doar toda sua fortuna e por isso é “capturado” pelo FBI; um músico de jazz que sonha em voltar para a família, mas que está preso a máfia que, por sua vez, o sede ao FBI que o usa como infiltrado em grupos extremistas; um “tira” durão, mas que sofre esporros da mulher e chora por saber que seu nome “nunca estará ligado a um grande caso”; um presidente de uma associação de dentistas, junkie e molestador de menores, que acaba morto por um pai cuja filha fora “raptada” por ele; pai que, na verdade, é também um executivo associado a uma corporação criminosa internacional, que por sua vez tem ligações com o milionário do ramo imobiliário! Perceba, amigo leitor, é o próprio “vício inerente” que se consuma aqui. Eis um achado de Pynchon: o termo vêm do direito marítimo e versa sobre coisas que não podem ser “seguradas” porque possuem um vício inerente, por exemplo, se meu barco transportar uma caixa de chocolate é certo que a mercadoria se derreterá pelo calor, pois isso é inerente a ela, portanto, nenhum seguro pode ser feito para mercadorias desse tipo. No filme, é a ex-namorada de Doc, uma bela jovem que largou o detetive hippie para viver uma aventura ao lado do milionário do ramo imobiliário, que brinca com o fato de ser uma mercadoria de vício inerente, mas é evidente que a expressão transcende em carga semântica: vício inerente é a própria condição do sistema de coisas em que vivemos: se um milionário vive uma crise pessoal e quer entregar seus bens, é o estado (o FBI) que entra em cena, junto com a máfia, para garantir que as engrenagens “continuem trabalhando”, afinal, algumas coisas são grandes demais para quebrar (qualquer semelhança com o “sistema bancário” não é mera coincidência). Ficamos então a pensar: não estará todo nosso arcabouço institucional (moral? psíquico?), fundamento último de uma sociedade democrática, tomado por um vício inerente?

Mas o filme de Anderson tampouco é meramente tautológico ao discutir essa, digamos, ‘condição sistêmica’, e é aqui que o personagem hippie é fundamental. É evidente que a contracultura também possui seu lado sórdido, é possível achar pelo menos duas ou três citações no filme ao caso da ‘Família Mason’, mas não se trata, como também li por aí, de uma obra que se ponha a analisar o ‘fracasso hippie’ - se esse fracasso existe, ele se deve, em boa parte, a sua cooptação. Minha impressão é outra: o filme encorpa a sensibilidade libertária contra o mundo coorporativo, mesmo que por vezes de modo irônico: basta pensar que é numa viagem de ácido que o milionário do ramo imobiliário tem uma visão sobre seu papel como predador no mundo e decide abandonar tudo, dando início a toda confusão. E o que dizer então do detetive Doc Sportello? Por motivos que não convém esclarecer, pois tomaria muito tempo, Sportello chega ao fim da trama com uma grande quantidade de drogas de um cartel internacional em suas mãos. Numa última reviravolta, ele não só sai ileso do negócio como recebe uma generosa oferta de compensação pela “mercadoria”. Pois bem, Doc declina da oferta e faz apenas um pedido: havia prometido a esposa do músico (que está preso a máfia) que o encontraria e o levaria de volta, portanto, pede pela liberdade dele. Note, amigo leitor, que não se trata de um gesto heroico, nem nada disso (Doc não é Schindler, nem Anderson é o intragável Spilberg), é apenas uma ação coerente com o personagem (afinal, ele não só fora contratado para aquilo, como havia prometido para a mulher) e isso é o que mais nos surpreende! O mundo tornou-se tão cínico que nós estranhamos quando nossos personagens tornam-se sujeitos morais.3 Nisso, a narrativa de Pynchon presta homenagem aos detetives durões, mas de natureza incorruptível, das novelas policiais de Chandler e Hammett, enquanto o filme de Anderson evoca toda uma tradição do cinema clássico americano e seus grandes tipos morais imortalizados por atores como Henry Fonda e James Stewart - a graça aqui é que tal figura é um hippie sujo e meio gonzo. De fato, o vício inerente do sistema é um grande monstro mitológico, mas isso não significa que ele se estenda a todas as esferas da vida humana, que não possamos sair dele. A história não é um pesadelo, um delírio, mas um feixe por vezes um tanto obscuro (ou distorcido) de decisões conscientes e inconscientes. As forças contrárias existem: e a cultura hippie surge aqui, com todos os seus “vícios”, muito mais como horizonte possível anti-sistêmico do que como o exemplo de uma falsa experiência histórica de maconheiros e desajustados. Inherent Vice é talvez de todas obras de Pynchon, a mais despida de paranoia e a mais aberta para a utopia.4

O filme de Anderson parece que vai realmente passar ao largo das telas brasileiras, sem repercussão de público ou crítica, afogado, como sempre, por uma distribuição penosa, embora não se possa negar que uma dificuldade “inerente” pode pesar sobre o filme: certa desorientação, um excesso de piruetas na condução da trama que pode facilmente desencorajar o expectador. Por isso, fiel leitor, peço aqui uma última homenagem silenciosa aquele homem sentado na fileira da frente, que mesmo tendo sua canela vilipendiada covardemente por uma barra de ferro canalha, sorrateiramente camuflada pelo negrume da sala, decidiu voltar e honrar seu compromisso com a história (a história do filme, também não vamos exagerar). No meu caso, voltei pra casa pensando se seria uma atitude viciosa aparecer na casa dela àquela hora da madrugada, mas pensava também numa questão, digamos, maior: o que pode nossa vontade diante dos desígnios do sistema? Nesse momento, um outro grupo de palmeirenses (meu deus, eles não vão embora nunca!) passou por mim cantando e sorrindo. Naquele momento, tive a certeza: ainda é possível acreditar em causas perdidas, nem que para isso tenhamos que exterminar todas as “diretorias” e “organizadas”. Sacou?