Notas por uma estética do estranhamento

Sebastian Wiedemann

(Sempre que posso, escrevo -com- os filmes e não –sobre- eles. E neste caso, escrever um texto bem articulado seria a Lukas e seu estranhamento.)

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O anômalo, o precário definem nossa contemporaneidade e mais ainda se se pertence aos dois terços do mundo que são excluídos. Ante tal estado de coisas só se pode ter um olhar de estranhamento, um que permita re-inventar e não re-(a)presentar, mas sim apresentar uma outra realidade, uma que seja fuga da já naturalizada.

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Filmar pensando secretamente em Paul Klee: não é preciso entender tudo, quem entende está no conforto e não no estranhamento, não deseja aquilo que ainda este por vir. O que sempre faz falta é saber compor. Cor, ritmo e forças; os componentes e procedimentos de um suporte/forma, antes que nada, é isso o que se narra. Mesmo antes que uma historia. Som e imagem não nasceram juntos, como também não cor e forma, mas ambos se compõem por proximidades e distancias. Filmar tendo indo secretamente, mesmo que seja em outra vida, à Bauhaus, antes que a uma escola de cinema.

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Os elementos de uma composição são livres, o diretor (John Torres) só os guia e articula sem trair sua espontaneidade, sem domestica-los, sem roubar-lhes seu estranhamento. Que a imagem se diga improvisação em silencio, por mais que com-viva com o som que se diz fabulação ilimitada.

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Que a imagem seja silenciosa, misteriosa, por mais que seja audível. Que nosso ouvido sempre se sinta estranho diante dela. Sempre distante na maior das cercanias. Som e imagem, matérias plásticas e rarefatas, sempre mutáveis e, sobretudo estranhas entre si e sem modelo prévio ou por-vir.

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Estar do lado do movimento real, da expressão em ancoras e sem lastres. Estar do lado da imagem que se deixa experimentar, que não tem medo e salta ao abismo sem o colete salva-vidas, que muitas vezes se diz sincro, som em sincro, chão para os que ainda não re-inventaram um ouvido, uma percepção, um estranhamento.

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O cinema nunca naturalizou, pelo contrario sempre estranhou/destorceu o percebido ao ver de-mais ou de-menos que o olho humano. Não negar seu artificio, pelo contrario, expô-lo. E que em e por seu excesso, nos deixe esse excedente, chamado acaso. Algo sempre se escapa, o sorriso num rosto, as galinhas em uma noite, talvez os últimos graus de verdade, no exercício de fabular sem limites.

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Fabular, nunca se tratou de organizar, tão só de narrar, de fazer que uma imagem siga a outra por choque ou contagio, sendo sempre órfãs, estranhas e sem modelo. Uma imagem é justo uma imagem e não é semelhante ou análoga a nada. Fabula-se, escutam-se sons de sci-fi, para potenciar a expressão de mais uma imagem entre as imagens, só é.

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Só há fragmentos, fragmentos de som, fragmentos de imagens, de vozes, de textos. Por fragmentos e por pulos se compõe, pois sempre se duvida de uma orientação possível. De um horizonte, de um porto ao que se chegue. Pular por uma janela, não é um fim. Estar entre cavalos e de fato ser meio cavalo, ser tikbalang depois de tudo, não é um fim ou o fim, é só ser estranho, para cair despois no preto/ no obscuro

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Ser estranho é ser um pouco fantástico e sinistro ao mesmo tempo. Ser estranho, é saber-se incomodo, pois não se pertence. Quem pertence, está quieto, pois tem lugar. Quem não, move-se para procurar onde habitar. Ser estranho, é desconhecer um habitat, um habito, uma forma previa, um modelo, e por isso experimenta e fabula, pois seu lugar ainda está impensado e está sempre por chegar.

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Ser estranho porque ainda se está procurando um novo cinema e na sua procura se lhe mantem vivo e fértil, como a terra onde só pode viver um tikbalang. Filmar então como um tikbalang, meio cavalo, meio homem. Meio neste mundo, meio em outro, onde o precário e anômalo deste é possibilidade coronada para o outro.

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Ser Lukas, ser estranho.

Ser enigmático.

Ser como a criança interior de Paul Klee.


Study on Lukas in Lukas The Strange from John Torres on Vimeo.