Editorial #001

Bruno Lottelli

4T3NÇ40!

Chama a nossa atenção que a “margem” tenha se tornado cânone no Brasil, a despeito deste ser ainda um país a procura de seu centro. São típicas as exortações à figura do marginal como pivô de nossa constelação cultural. Para citar algumas, tanto o jornalismo de massa como diversas vanguardas artísticas alimentaram-se desta figura para estabelecer e demarcar seu repertório. Falar do marginal tornou-se pauta e palanque, leitmotiv legitimador das intervenções públicas destes intelectuais. Em termos históricos, a busca pela identidade nacional durante o século XX almejava criar símbolos e referências que pudessem parelhar os ombros com aquelas provenientes das nações ditas desenvolvidas, mas assimilar lugar subalternizado de fala do brasileiro perante todas as divisões internacionais culminou em recuo das idéias de uma representação protagônica. O esvaziamento desta possibilidade conduziu, no entanto, ao reealojamento da produção simbólica nos campos das periferias.

Talvez foi Paulo Emilio Salles Gomes quem tenha melhor captado o quefazer diante destas condições. Sua síntese desta viagem histórica das periferias ao centro e de volta às periferias sugeria que deveríamos compreender as possibilidades criativas na própria incapacidade de copiar os cânones estrangeiros. O que nos chama a atenção justamente é desligamento da maior parte da produção intelectual desta tese. Famintxs, exiladxs e desprotegidxs tornaram-se símbolos heróicos de uma produção coberta de verde-amarelo e militância em defesa da participação de personagens e produtores nacionais no mercado nacional. Porém, nota-se nessas relações a adoção do “marginal” como uma alteridade distante, a ser interpretada, defendida e, nos termos atuais, reinserida. A “margem” define-se nestes termos como locus incontornável, impossível de ser apagado, tal qual uma favela que acompanha uma rodovia expressa, melhor assumida do que esquecida a fim de evitar traumas maiores. Enfim, finalmente um outro que nos representa.

Talvez possa ser dito que diante da negativa histórica de ser o outro desejado (estrangeiro) tenhamos nos conformado em ser o outro indesejado (marginal). A lição não-aprendida de Salles Gomes levou ao reestabelecimento da lógica protagonista-coadjuvante (para não dizer opressor-oprimido), só que em local diverso. Ainda não estava à vista a possibilidade de desconstruir tal lógica, reconfigurar o próprio conceito de identidade e, inclusive, a necessidade de ter apenas uma identidade permanente. Compreendemos que diversos fatores históricos impediram que outras lógicas se desenvolvessem tal como acontece hoje. Esperamos colaborar nesta direção, emancipadora ao nosso juízo, investigando as produções de nosso tempo, captando seus fragmentos e organizando-os para coletivamente pensar o concreto. Algo deste processo pode ser lido-visto-ouvido nesta AGRESTE #001!

Nosso trabalho deseja o não-construir novos cânones!

Por isso… por ora…

AGRESTE - Agrupamento de Estudos Excêntricxs está sendo construída por realizadorxs que problematizam e buscam redefinir sua condição marginal de produtores simbólicos. Excêntricx foi o termo escolhido.

Há dois anos atrás havia um programa terrorista poético: lançar rapidamente três edições-bombas que explodissem sem anúncio a história da crítica mercadocêntrica brasileira. E, sobre os escombros, organizar as bases para um novo fazer-pensar imagens-sons em movimentos. Para isso seria necessário juntar virulência crítica e a potência caótica-criativa do humor. Juntar Benjamin e Maicknuclear! É com gozo sincero que apresentamos nesta primeira edição lado a lado os trabalhos de Ewa Mazierska e Fabio Ramalho, implicados na desestabilização dos juízos conservadores sobre o terrorismo e a irreverência. Nesta relação, que nos auxilia discutir as perspectivas hegemônicas pelas quais enquadramos o mundo à nossa volta, encontramos muitas de nossas questões geradoras e saímos revigorados desta visita às fontes.

Hoje há um outro projeto em curso. Aliás, as palavras projeto e curso tornaram-se difíceis nesta condição, pois manifestos, dogmas, tendências ou programas já não operam normativamente. Trata-se de aceitar as contribuições da inteligência coletiva, da resistência afetiva, do pensar em fluxo e tensiona-las com as experiências da etapa etapa anterior. Caminhamos movidos pelo desejo, porém direcionados pela crítica rigorosa. Alguns pressupostos teórico-metodológicos deixaram de existir e é possível notar uma certa presença do centro vazio, um certo cuidado de não dominar ou saturar os sentidos das coisas. É preciso antes estar com elas, entre-vista-las como faz Lincoln Péricles. É preciso desvelar as diferenças, como nos afirma Trinh T. Minh-Ha. É preciso reconhece-las na totalidade concreta da experiência humana, combatendo sua homogeinização, partindo da diversidade cultural para garantir a igualdade social.

Desvelar esse nivelamento das diferenças é, portanto, resistir a essa própria noção de diferença que, definida nos termos do amo, muitas vezes recorre à simplicidade das essências

Trata-se, portanto, de continuar a luta pelo fim da opressão entre os homens, de emancipá-los dos termos que os têm oprimido historicamente. A busca do n - 1, daquilo que podendo ser retirado da totalidade (termos do amo) levará à emancipação coletiva. Continuamos a compreender que, no atual estágio do desenvolvimento histórico, é o capitalismo quem normatiza e define quais são os “termos do amo”. À mercantilização de todos aspectos da vida atribuímos a noção de - 1, do algo a ser retirado. Diogo Noventa e André Meirelles Collazzi dedicaram seus trabalhos nesta edição para a análise da forma como a mercantilização se produz em termos de estilo e modo de produção cinematográficos, respectivamente. Fazemos eco a Collazzi que, no final de seu texto, conclama:

A intervenção, agora, deve ser política.

A este respeito, a questão que nos atravessa é antiga, data desde o início destes dois anos que se passaram (pelo menos). Como concretizar a intervenção política na forma mais direta e cotidiana possível? Entendemos que, em primeiro lugar, é preciso estabelecer meios e processos de trabalho que não reproduzam as lógicas da hierarquia, da produtividade, da meritocracia e da especialização. Por isso, por ora, estamos organizadxs em um conselho editorial multifacetado e propositivo. No início de 2015, Eduardo Liron convocou alguns “guerreiros espirituais” - como gosta de chamar - para a tarefa de reviver e atualizar o sonho da AGRESTE. Estava formado um grupo inédito, cujas expertises e trajetórias diversas - nas áreas de teatro, cinema, videoarte, movimento social, programação, design - não levariam ninguém à conclusão imediata de que uma revista seria a síntese mais provável.

O diálogo foi a ferramenta básica. Reunidxs pela primeira vez, cada um expôs os seus desejos e expectativas. Observadas as convergências e tensões passamos a construir, encontro a encontro, a pauta e a estrutura da revista. Se foram os desejos comuns a amálgama deste processo colaborativo, nossa orientação partiu da necessidade urgente de superar os modos de fazer-sentir-pensar audiovisual. Como dito antes, desejamos o não-construir de novos cânones. Por isso, por ora, entendemos que a centralização e monopólio dos conceitos e sentidos sobre a vida e, principalmente, a experiência artística geralmente praticados pelas revistas especializadas era a barreira mais próxima e possível de ser removida (-1). A observação feita acerca da figura do marginal no início deste editorial floresce a partir deste raciocínio. À guisa da sabedoria pauloemiliana, decidimos não nos afobar em definir os campos de luta, erigir e mitificar campeões - sejam obras, autores, estilos, escolas - dentro dos termos oferecidos pelo amo. Ao nosso juízo, diversos movimentos de vanguarda, incluindo a experiência crítica produzida ao seu respeito, serviram ao sistema e seu aperfeiçoamento. Nada ao centro, nem mesmo o mais recôndito cineasta filipino ou a nova onda de cinema hare-krishna, por mais que seus princípios sejam o de resitência à mercantilização da vida.

Se não queremos ser o amo que normatiza os desejos possíveis e tampouco ser o seu avesso, que fazer? Tanto uma quanto a outra representação estão dentro da mesma lógica, que procura equilibrar toda a produção simbólica, diversa com já reconhecemos, em apenas dois eixos dicotômicos: centro e periferia. Ewa Mazierska observa em seu ensaio a reprodução desta mesma divisão nos termos da representação dentro dos filmes hollywoodianos entre protagonista e massa e aponta para necessária união entre oprimidos para se opor frente a esta lógica. Por isso, por ora, adotamos o ser excêntrico como estratégia. Estamos decididos a ampliar nossos sentidos para praticar uma nova crítica, intervindo politicamente com doses de terrorismo e ironia.