Diário pró-palestino sobre um festival israelense

Sarah Gampel e Anna Padilla

Tradução por Edgar Zanella e Eduardo Liron

Diário de viagem do “The Film Bus Project” em Israel durante Maio de 2014

Visão crítica da realidade:

Cinema road-movie de animação experimental universitário sueco pró-palestino

Tive o prazer de conhecer Sarah Gampel em 2014 no 16 (o) Tel Aviv International Student Film Festival, Israel. Dentro do festival há um programa chamado The Film Bus Project onde alguns participantes são selecionados para conviver 15 dias em viagem por Israel (com exceção do território palestino) e exibir seus filmes em diferentes cidades. Minha identificação com Sarah se dá em todos os questionamentos e críticas que levantamos durante nossa experiência por lá. É um lugar politicamente insano e achei importante colocar as impressões de Sarah por aqui.

Sarah é cineasta independente em Stockholm, Suécia. Seus filmes de animação foram exibidos no Nobel Museum (Stockholm), no Brooklyn, Nova York, em Givat Olga, em Ramallah e La Havana International Festival of New Latin American Cinema, Cuba. Aqui ela nos abre seu diário técnico sobre a viagem por Israel, ação políticas pró-palestina de boicote aos festivais israelenses e alguns stills do processo do seu novo filme. Desde 2014 Sarah tem se dedicado a uma animação autobiográfica sobre a viagem.

Bom ressaltar que todas as fotos aqui são do processo do filme da Sarah, ainda em construção: ‘Film stills are work in progress.’

Mirrah Iañez

Nós estávamos interessadas em ir a Israel e a Palestina no contexto de uma troca cultural entre jovens cineastas e queríamos encontrar e nos ligar a diferentes movimentos de paz e protesto que se opunham a ocupação da Palestina por Israel. Nós estávamos curiosas em como jovens estudantes de cinema israelenses e palestinos se relacionavam com a ocupação e o que a nova geração de cineastas pensavam sobre tal situação e como a representavam através da arte.

Posteriormente, nós nos arrependemos de nossa participação no “The Film Bus Project” e de nossa experiência na universidade de Tel Aviv que organizou o projeto.

Nossa objetivo inicial em participar neste projeto era na esperança de que consegueríamos fazer nossas vozes críticas contra a ocupação serem ouvidas e influenciar outros com nossas perspectivas. Nós ficamos desiludidas com a estrutura do projeto, que não possibilitava discussões críticas e desviava-se para evitar discussões críticas. Nossa participação apenas legitimou a agenda da universidade de Tel Aviv, e consequentemente da ocupação da Palestina por Israel e a opressão dos palestinos, que fere diversas leis internacionais.

Numerosos acadêmicos, estudantes, artistas e cineastas pelo mundo apóiam a campanha palestina de boicote global PACBI (“Palestinian Campaign for Cultural and Academic Boycott of Israel”, Campanha Palestina de Boicote Cultural e Acadêmico à Israel). PACBI é parte do BDS que significa Boicote, Desinvestimento e Sanções.

Nós pedimoas a todos artistas e cineastas que boicotem eventos culturais e acadêmicos e colaborações com universidades israelenses, festivais de filme/cinema e instituições que não tomam uma posição ativa contra a ocupação.

A viagem de Sarah

Após ver um curta animado de Israel feito na Academia de Art de Bezalel em Herusalem, eu questionei a minha instituição escolar se existia alguma possibilidade de realizar um semestre de intercâmbio em Israel. O projeto era conhecido como “Film Bus Project” e era parte do Tel Aviv International Student Film Festival.

http://2014.taufilmfest.com/2066+Film+Bus

O projeto consiste em um grupo de estudantes de cinema – de Israel e internacionais – que viajam por Isarel em um ônibus, exibindo seus filmes em diferentes locais. No ato da inscrição havia uma descrição que dizia que o projeto pretendia iniciar uma mudança social.

Eu me inscrevi para o projeto pois acreditava que o “Film Bus” iria viajar tanto em cidades isaraelenses quanto palestinas e discutiria a ocupação da Palestina por Israel de uma forma crítica.

Alguns dias antes de minha viagem, eu recebi um email com informações de quais cidades eu iria viajar; todas eram em Israel o que me deixou desapontada. Eu contactei Anna Padilla – uma estudante de cinema que já havia participado da viagem dois anos atrás, e Pea Holmquist – um diretor de documentários que viajava frequentemente por Israel e pela Palestina. Ambos Pea e Anna confirmaram meus receios quanto a falta de discurso crítico no projeto; o ônibus não viaja pela Palestina e não havia participantes de Gaz ou do West Bank. Durante a viagem de Anna, somente um estudante de cinema palestino participou, Samar, que era um cidadão de Israel que vivia em Tel Aviv. Mesmo com eles me avisando sobre a falta de crítica no projeto, eu decidi em participa-lo de qualquer modo.

O festival de filme estudantil internacional de Tel Aviv, a qual o projeto “Film Bus” está associado, é organizado e executado por estudantes de cinema da universidade de Tel Aviv e do departamento de TV. O festival de cinema é parte de suas educações.

Registro da viagem

Dia 1, Terça-Feira, 20 de Maio

Mapa

Todos os participantes se reuniram no campus da universidade de Tel Aviv para a cerimônia de abertura. Havia cerveja, champagne, pipoca e sanduíches. Nós colocamos nossas bagagens no ônibus e começamos nossa jornada.

Dormimos em um kibbutz em Urim. Após a janta nos reunimos para conhecermos uns aos outros e para receber informações sobre os próximos dias. Descobrimos quais dias nós iríamos exibir nossos filmes e os estudantes que organizaram a viagem nos contaram sobre um projeto chamado "Film Groups" (Grupos de Filmes); um projeto que involvia adolescentes das cidades que iríamos visitar. Juntos com os participantes do Film Bus, esses adolescentes escreveriam um roteiro de um curta que seria apresentado no programa de exibições da noite.

Posteriormente teria uma festa com cerveja e licor. Eu perguntei a uma estudante de cinema como ela pensava sobre seu futuro em Israel e se ela estava envolvida no movimento de paz contra a ocupação. Ela demonstrou-se não confiante e disse pensar que Israel nunca deixaria a ocupação; a única coisa que poderia causar uma mudança seria uma pressão externa, como um boicote à Israel. Ela disse que críticas israelenses contra a ocupação poderiam levar a uma guerra civil.

Mais informações sobre o vilarejo palestino onde Urim foi construído: http://www.palestineremembered.com/Beersheba/al-%27Imara/index.html

Dia 2, Quarta-Feira, 21 de Maio

Ônibus

Toda manhã acordávamos cedo para o café da manhã e para nos organizarmos no cronograma do dia. Hoje iríamos visitar o Parque Ofakim que é um Parque Karim Kayemeth Lelsrael, KKL. KKL é também um dos maiores patrocinadores do Festival. Quando chegamos ao parque tivemos uma palestra sionista. O guia nos contou uma história de Israel de uma perspectiva sionista e ela se referia aos estudantes de cinema como se todos fossem judeus (o que não era verdade). Infelizmente eu não estava preparada para isto e eu não consegui perguntar nada. Isto era o total oposto do que esperava do projetto "Film Bus".

A palestra foi como a KKL, com a ajuda do dinheiro coletado ao redor do mundo, plantou árvores e construiu parques em áreas que normalmente eram desertos vazios. (Posteriormente, eu encontrei informações sobre o desaparecimento de vilarejos palestinos que existiam anteriormente onde estes parques estão construídos hoje, http://www.bdsmovement.net/activecamps/jnf e http://www.palestineremembered.com/GeoPoints/Jerusalem_528/SatelliteView.html).

Nós andamos pelo parque com um guia de pássaros. Este foi um dos locais mais assustadores que já estive. No meio do parque havia uma antiga estação policial árabe fechada. O guia contava sobre os diferentes pássaros e plantas. Ele contou-nos sobre o pássaro cuco e como ele colocava ovos nos ninhos de outros pássaros. Os ovos e os filhotes dos cucos são maiores que dos outros pássaros, que acabavam sendo empurrados para fora dos ninhos. O filhote de cuco então acabava ficando com toda comida trazida pelos pássaros pais que construiram os ninhos. O guia nos disse que apesar dos ovos serem maiores, os pássaros pais dos ninhos não faziam nada, dizendo que toleravam isso, sabendo ou não que os ovos eram seus. O guia concluia isso; mesmo que parecesse injusto, a longo prazo isso era insignificante pois o cuco só fazia isso algumas vezes. Ele chamava isso do balanço de terror da natureza. Depois ele contou que os cucos europeus eram diferentes dos de Israel pois eles podiam alterar o tamanho e a cor de seus ovos para não deixar os outros pássaros suspeitos. Mas isto era outra história, dizia ele, enquanto aproximávamos de uma plantação de eucaliptos.

Pássaros

Durante toda a viagem eu sentia-me como faltando informação ou aprendizados sobre os locais que estava visitando. O guia apenas nos contava sobre a história que deixava Israel sobre um ponto de vista positivo e mantinha silêncio sobre a violenta história de Israel em relação a Palestina. Após isso, viajamos para Ofakim onde exibimos nossos filmes à noite. Nós distribuímos panfletos para trazer as pessoas à nossa exibição.

De noite, nós nos reunimos num anfiteatro externo. Exibimos filmes dos "Film Groups" (Grupos de Filmes) que foram gravados por jovens da cidade assim como filmes criados por participantes do "bus project". Antes de cada filme, seu diretor se apresentava e apresentava o filme.

Após as exibições nós voltávamos para o kibbutz, onde havia uma festa para quem sentia vontade de festejar.

Dia 3, Quinta-Feira, 22 de Maio

Ônibus

Hoje viajamos para Netiv Ha’Asara, um moshav situado próximo ao muro, fora de Gaza. Um dos residentes nos dá uma palestra em hebraico e nos leva a uma colina onde podemos ver o muro e Gaza. O guia nos diz que as casas são construídas de modo que elas também funcionam como abrigos contra bombas, para mantê-los a salvo de mísseis a partir de Gaza. Ela também nos conta sobre a terapia da arte que eles fornecem para as crianças, para fazê-los se sentir seguros e não terem medo dos mísseis. (Um dos estudantes israelenses me diz que são jovens de 16 anos que construem esses mísseis e que eles raramente acertam o alvo.)
O motorista do ônibus diz que não precisa sentir pena desses moradores que vivem aqui já que eles são subsidiados pelo Estado.

Nós nunca falamos sobre o cerco de Israel e bloqueio de Gaza e sobre como as pessoas que vivem alí estão continuamente submetidas a ataques militares israelenses.

Depois de ver Gaza da encosta, temos pressa para chegar à praia ao norte de Gaza. Os alunos nos dizem que precisamos nos apressar para termos tempo para se bronzear. Durante a viagem, normalmente estamos apressados para realizar diferentes atividades, como passar um tempo na praia e beber cerveja. Não há espaço para diálogo ou discussões. Este stress constante às vezes me dá uma sensação de estar em um acampamento militar.

Depois da praia, vamos mostrar nossos filmes em Netiv Ha'Asara. E depois festa.

Dia 4, Sexta-Feira, 23 de Maio

Filmando

Hoje nós visitamos uma cidade beduína chamada Shegev Shalom e eu vou ajudar uma equipe cinematográfica na gravação de um curta-metragem com alguns jovens locais. Estou ansiosa para isso. Enquanto os outros visitam uma sociedade israelense, eu ajudo com as filmagens de hoje. Os jovens só falam árabe, mas temos a sorte que um dos estudantes israelenses também sabe árabe. Nós nos ajudamos durante as filmagens e mesmo que apenas um de nós soubesse árabe, a filmagem corre de forma fácil e divertida. Os jovens moradores optaram por fazer um filme que muda a forma com que as outras pessoas, especialmente os israelenses, os vêm. É um filme sobre como a noção estereotipada de beduínos, como sendo violento e criminoso, não é real.

Antes do jantar nós celebramos o kabbalah Shabbat e nós não bebemos tanto vinho como nas outras noites por respeito aos moradores que são muçulmanos.

Alguns dos estudantes israelenses tiram sarro das moradoras, dizendo jocosamente que elas estão com medo de ser estupradas durante a noite pelo fato de terem conversado com alguns deles.

Após a exibição todos nós dormimos em uma grande tenda.

Dia 5, Sábado, 24 de Maio

Hotel

Durante a viagem de onibus para Haifa, um dos estudantes israelenses me entrevista para um blog... Eu lhe pergunto se ele sabe de todas as organizações que trabalham pela colaborações entre israelenses e palestinos. Ele me diz que não é tão comum, mas que ele está participando de uma agora. É um projeto de cinema em que israelenses e palestinos fazem curtas-metragens sobre o mesmo tema. O tema deste ano é de esportes e os filmes serão exibidos juntos no festival de cinema. Mas, como sempre acontece com esses projetos de colaboração entre israelenses e palestinos, os cineastas nunca se encontram. Todos eles fazem seus filmes separadamente... Aproveito a oportunidade para lhe perguntar quais os seus pensamentos sobre a Palestina. Ele me diz que ele não pode falar ou pensar sobre isso; é muito difícil e desconfortável. Isso é o fim da discussão.

Nós visitamos Ein Hod, uma cidade de artistas com um Museu Yanco Dada. O guia fala sobre o movimento Dada e explica como ele se formou como um protesto contra a Primeira Guerra Mundial e a sociedade que permitiu esta guerra. Um dos estudantes israelenses se opõe e diz que o movimento Dadá não era um protesto contra qualquer coisa. Este é o único debate político durante toda a viagem.

Nós ficamos em um hotel em Haifa e durante a noite nós mostramos nossos filme em uma cidade chamada Tirat Ha'Carmel. Antes da exibição tomamos cerveja e comemos pizza no telhado do hotel.

De noite, há uma festa.

Dia 6, Domingo, 25 de maio

Onde está?

Hoje estamos em Givat Olga. Exibimos os filmes durante a manhã e vemos uma palestra com uma jornalista israelense, Ilana Dayan. Os alunos estavam ansioso para sua palestra. Dizem-me que ela, com seu jornalismo radical de esquerda, é um modelo... Por uma hora e meia, ela fala sobre furos de reportagem onde ela expôs escândalos de corrupção política, também dá conselhos práticos sobre enquadramento e técnicas de narrativa. Ela nunca menciona ocupação e só fala de Israel sobre os aspectos técnicos do jornalismo e do cinema documentário.

Ninguém menciona a Palestina.

Após a exibição e a palestra, vamos para a praia. Durante a noite eu apresento e exibo o meu filme. Depois é festa, bebemos cerveja e jogamos jogos.

Dia 7, Segunda-feira, 26 de maio

Ônibus

Antes do almoço nós fazemos yoga na praia. Em seguida, visitamos Harduf, um kibbutz antroposofico onde nós alimentamos os bezerros e as galinhas e preparamos um almoço orgânico. O guia nos mostra a escola local e explica o método de ensino da Antroposofia. Há uma breve discussão sobre se as crianças estão sofrendo lavagem cerebral.

Antes da exibição da noite em uma cidade chamada Deir al-Asad, onde os moradores são palestinos com cidadania israelense, árabe-israelenses, temos uma reunião com alguns jovens locais. Nós nos encontramos com cinco alunos; uma das alunas nos fala sobre a ONG que ela começou. Sua finalidade é ajudar os jovens da cidade a estudar na universidade. A reunião termina abruptamente porque estamos atrasados para a exibição desta noite. Alguns dos estudantes israelenses tirar sarro de moradores da cidade, incluindo os que acabaramos de conhecer.

Dia 8, terça-feira, 27 de maio

Parque

Durante meio-dia nós caminhamos em um parque KKL em Golan. O guia nos diz o quão patriótico ele se sente quando vê as plantações. Nós cantamos canções em hebraico que eu não entendo o que significam. Então nós nadamos em lago de Genesaré. Comemos melancia e bebemos cerveja.

A última sessão de cinema é em Beit She'an e depois há uma festa de despedida, com vinho, cerveja e jogos.

Dia 9, Quarta-feira, 28 de maio

Ônibus

Antes de voltar para Tel Aviv, nos reunimos para ter uma reunião para que todos pudessem partilhar seus pensamentos sobre a viagem. A maioria estava contente e tinham passado por uma experiência incrível.

Depois de dois dias no festival de cinema estudantil Tel Aviv International, onde as perguntas aos diretores se centraram principalmente em falas sobre maconha, a praia e a vida noturna de Tel Aviv, eu decidi que eu já tinha visto o suficiente e viajei para Ramallah, Hebron e Belém nos territórios ocupados da Palestina.

Palestina

Aqui está o clipe de abertura do festival de cinema, feito pelos alunos, que foi mostrado antes de cada seleção: https://www.youtube.com/watch?v=Q43SBwGv20Q#t=22

Com a ajuda do documentarista Pea Holmquist, tive a oportunidade de visitar a Universidade de Birzeit fora de Ramallah, onde ele leciona a matéria de cinema documental. Nós assistimos a um documentário sobre uma mulher palestina que, apesar de vários ataques incendiários, se recusa a deixar sua casa para os colonos ilegais. Os estudantes estão frustrados depois de assistir ao filme. Eles querem fazer filmes sobre a ocupação e sua situação, mas eles sentem que é difícil de encontrar perspectivas novas e interessantes que alcancem o resto do mundo, já que tantos filmes já foram feitos sobre o assunto. Há um contraste impressionante entre o silêncio e a ignorância dos estudantes de cinema israelense a respeito do assunto e da ânsia dos estudantes palestinos para discutir a ocupação usando os filmes como ferramenta para a mudança.

No final da palestra do dia eu me apresento à classe e lhes relato sobre o Bus Film Project. Os alunos me perguntam o que os estudantes israelenses dizem sobre a Palestina e qual a sua opinião sobre a ocupação. O que eles dizem sobre nós? Quais são suas discussões?

É oneroso responder à pergunta e lhes relatar o silêncio dos alunos israelenses e seu desinteresse em falar sobre a ocupação ou se engajar. Eu tento o meu melhor para encontrar algo positivo para dizer. Mas os estudantes captam a idéia e dão de ombros com decepção.

Tel Aviv International Student Film Festival

Festival

O festival de cinema aconteceu poucos dias depois da viagem de ônibus. Tanto durante a viagem de ônibus e quanto o festival nunca ocorreram quaisquer discussões sobre ocupação da Palestina por Israel, mesmo que, muitas vezes, estivéssemos apenas algumas polegadas distantes da Palestina, tendo a ocupação, a opressão, a catástrofe humanitária, bem diante de nossas caras.

Foi mais um golpe de relações públicas do que um intercâmbio cultural. Os estudantes internacionais e eu eramos referidos como turistas e os estudantes israelenses fizeram o melhor possível para nos mostrar Israel de forma acrítica e garantir que estaríamos o tempo todo festejando e nos divertindo.

A descrição do projeto diz que os estudantes de cinema que organizam o festival e a viagem de ônibus o fazem voluntariamente, mas na realidade é uma parte da sua educação. Eles têm de fazê-lo como parte de sua educação para poderem se graduar. Isso às vezes me fez sentir como se eu estivesse sendo uma parte de um trabalho escolar forçado e chato.

A viagem de Anna

A documentarista estudante Anna Padilla participou da primeira edição do Film Bus Project, 2012. Durante essa viagem ocorreram alguns eventos que incluíram críticas contra a ocupação, mas ao longo dos anos, eles foram sendo removidos.

Durante sua viagem, um dos eventos foi cancelado porque os estudantes de cinema israelenses que a organizaram sentiram que ele seria excessivamente crítico contra Israel e eles tiveram medo de que os estudantes internacionais formariam uma "idéia errada" sobre o país. O seminário que foi cancelado seria uma reunião com uma organização chamada Breaking the Silence. É uma organização israelense onde os ex-soldados da IDF (Forças de Defesa de Israel) testemunham sobre os abusos que eles cometeram e viram durante seu serviço militar.

Foi depois de um seminário com a produtora de cinema israelense Liran Atzmor, que produziu o documentário "The Law In These Parts" (2011), disse que alguns dos estudantes de cinema israelenses se irritaram e decidiram cancelar o encontro com o Breaking the Silence.

O filme, que foi exibido durante o Film Bus Project de 2012, é um documentário sobre a ocupação e do sistema jurídico militar que é imposto ao povo palestino.

Durante o seminário, Atzmor disse que "a maioria das pessoas não sai às ruas se eles souberem que a luta é contra a ocupação. Eles nunca saem em grande volume para lutar pelo fim da ocupação. Nunca houve um milhão de pessoas protestando em Israel contra a ocupação, mas em vez disso, contra o preço do queijo cottage no supermercado, houve um milhão de pessoas que saíram de suas casas para lutar. Isto é inacreditável. Como as pessoas podem ignorar a realidade de uma forma tão extrema."

Os estudantes de cinema israelenses se irritaram porque eles acharam que a produtora se aproveitou desta oportunidade para criticar Israel. Eles esperavam que ela discutisse o processo de realização do filme e que apenas mencionasse Israel com neutralidade.

Samar Qupty de Nazaré. Ela é uma palestina com cidadania israelense, que agora vive em Tel Aviv. Ela é uma ex-estudante de cinema no Tel Aviv University Film and TV Departament. Samar foi a única estudante de cinema palestina que participou do Film Bus Project de 2012. Ela nos disse que sua participação no Bus Film Project a fez sentir-se como uma cúmplice; como se sua presença estivesse sendo usada para dar uma boa aparência o projeto e faze-lo parecer politicamente consciente. Ela é muito crítica ao projeto e diz que: "Esses projetos de intercâmbio, como o projeto de ônibus, não são aleatórios, eles estão lá por uma razão que não é meramente cultural ou acadêmica. Eles estão lá para mudar a idéia do mundo sobre Israel. Eles estão lá para espalhar uma "perspectiva" diferente da ocupação. Eles estão lá para trazer adolescentes do mundo todo, mostrar-lhes o país, alimentá-los com informações falsas sobre a história e torná-los se apaixonar por Israel — e não pela Palestina. É por isso que boicote cultural não é menos importante do que o boicote econômico".

Samar diz que, sendo palestina, ela foi discriminada durante a sua educação cinematográfica na Universidade de Tel Aviv:

"A discriminação étnica começa com a língua. Como você sabe, a língua oficial nas universidades é o hebraico. Estudantes palestinos que vêm de pequenas vilas, ou mesmo da cidade (Nazareth por exemplo), não tiveram contacto com a língua hebraica antes. De repente, tudo o que ouvem é o hebraico acadêmico, tudo o que eles precisam para escrever é o hebraico acadêmico. Assim, desde o início, o aluno árabe eo estudante judeu não estão no mesmo nível. E isso leva a uma série de dificuldades que só fazem essa lacuna se tornar cada vez maior. Os feriados palestinos, por exemplo, não são considerados também, é evidente. Então, se você quer comemorar o Natal, ou o Eid Elfeter ou o El Adha com a sua família, você precisa saber que fará isso "às custas" do sacrifício de seus estudos e deveres académicos. Outro obstáculo que os estudantes palestinos enfrentam é uma missão acadêmica. Normalmente, os artigos que estão sendo usados nestas universidades são em Inglês, de modo que o aluno não só deve escrever hebraico, mas também precisa ler Inglês e muito provavelmente, pensar em árabe. Agora, teoricamente, segundo a lei, a universidade deveria permitir que os alunos árabes escrevessem suas tarefas acadêmicas ou realizassem seus seminários em sua língua materna, sendo também obrigadas a fornecer professores capacitados para avaliar estas tarefas e lhes atribuir uma nota. Na prática, contudo, quando fui ao departamento Cinema na universidade reivindicando o meu direito de escrever um seminário em língua árabe, devido às minhas dificuldades de linguagem, a resposta foi: "Desculpe-nos, mas não temos nenhum professor que fale árabe para avaliar o seu seminário, assim você terá que escrevê-lo em hebraico ". Estes são apenas a alguns pontos que eu acho que são mais objetivos. Eu não vou falar sobre o racismo entre professores e alunos que acontece sobretudo nos corredores, nem sobre o racismo entre os próprios estudantes, especialmente em tempos difíceis como agora, porque não é o caso para todos, então eu não acho justo generalizar. Mas, vamos dizer, ele está lá em grande parte do tempo. Estou extremamente emotiva ultimamente por causa do massacre de Israel em Gaza1. Eu tentei ser o mais objetiva possível quanto a isso, mas eu ainda estou procurando a luz no fim do túnel. Eu sei que ela está lá, só precisamos querer alcançá-la, muito mesmo!"

Conclusões sobre a nossa participação no Film Bus Project

Paz?

Somos extremamente críticas a este projeto, bem como ao Tel Aviv International Student Film Festival, uma vez que esses eventos não tomam uma posição ativa contra a ocupação.

Apelamos a todos os artistas, cineastas, estudantes, acadêmicos e pesquisadores para se unirem ao movimento mundial de boicote cultural e acadêmico.

Este não é um protesto silencioso. Acreditamos que é importante termos clareza dos motivos desta escolha pelo boicote para podermos enviar respostas escritas aos convites de participação, seja diretamente para quem nos convidam, seja numa carta aberta. Isso nos dá a oportunidade de explicar que este é um boicote em solidariedade ao povo palestino. O objetivo é pressionar o governo de Israel para o fim da ocupação através de meios pacíficos.

Como artistas e cineastas internacionais, a nossa participação em projetos que não tomam uma posição ativa contra a ocupação só leva à normalização e legitimação da Universidade de Tel Aviv e da política israelense atual, incluindo a ocupação que viola diversas leis internacionais.

Aqui está um extrato de uma chamada para o boicote da "Conferência de Cinema e Estudos de Mídia" da Iniversidade de Tel Aviv:

"À Universidade de Tel Aviv.

A universidade de Tel Aviv é cúmplice do tratamento desigual dos palestinos em Israel (que configuram 5% da sua população estudantil, a maioria dos quais são cidadãos do Estado de Israel), e da repressão violenta à resistência política à ocupação; por exemplo:

  • A Universidade de Tel Aviv optou por permanecer em silêncio enquanto toda a população de Gaza foi excluída pelo governo israelense da possibilidade de se inscrever e estudar na universidade. Os estudantes palestinos de Gaza têm uma chance melhor de serem aceitos em uma universidade nos Estados Unidos do que na Universidade de Tel Aviv.http://electronicintifada.net/content/gaza-students-margaret-atwood-reject-tel-aviv-u-prize/1043; Story of student from Gaza, Right to Education Campaign, 26 de Março de 2007: http://nyact.net/testimonies/#student%20from%20Gaza.">2

  • A administração da Universidade de Tel Aviv restringe a liberdade de expressão e de protesto de estudantes palestinos, honrando a "Nakba Bill",http://againstcornelltechnion.files.wordpress.com/2013/05/academic-watch_-report1.pdf.">3 uma lei discriminatória criada para desencorajar discussão acadêmica e comemoração pública de um dia de luto, no aniversário do estabelecimento de Israel, pela expulsão de mais de 750.000 palestinos de suas casas e de suas terras pelas forças sionistas e israelenses, e o massacre de outros mil, durante o período entre 1947 e 1949. Com o mesmo espírito, a Universidade recentemente cancelou uma palestra que comemoraria o Dia da Terra, que seria ministrado pela figura política palestina Mohammed Kena'anahttp://www.haaretz.com/weekend/magazine/a-psychometric-exam-geared-to-jews-1.230857; Jonathan Cook, No Room for Arab Students at Israeli Universities, The Palestine Chronicle, 18 de Agosto de 2010: http://www.palestinechronicle.com/no-room-for-arab-students-at-israeli-universities/#.UquckvvMvac; Students from Gaza: Disregarded Victims of Israel’s Siege of the Gaza Strip. A Report on Israel’s Prevention of Gazan Students from Studying at the West Bank Universities, Al Mezan Centre for Human Rights, Julho de 2010: http://www.mezan.org/upload/10684.pdf; também veja Zama Coursen-Neff, Discrimination against Palestinian Arab Children in the Israeli Educational System, International Law and Politics 36:749 (2004): 101-162: http://www.hrw.org/sites/default/files/related_material/JILPfinal.pdf; e Second Class: Discrimination against Palestinian Arab Children in Israel’s Schools, Human Rights Watch, September 2001: http://www.hrw.org/reports/2001/israel2/.">5

  • Como todas as universidades israelenses, a Universidade de Tel Aviv também adere a uma lei israelense, que estipula que as universidades devem dar um tratamento especial aos estudantes que são militares reservistas - sob a forma de assistência financeira, restrições etárias para a adesão em alguns programas, e alojamento estudantil. Isso evidencia tanto a cumplicidade da Universidade de Tel Aviv para com a ocupação quanto com suas práticas discriminatórias contra estudantes palestinos, que não são obrigados a servir nas forças armadas de Israel. A universidade igualmente discrimina pequeno mas significativo contingente de judeus conscientemente críticos que se recusam a servir nas Forças de Defesa de Israel (IDF).http://www.idf.il/1283-15436-EN/Dover.aspx; Yaakov Katz, Reservists’ benefits package approved, The Jerusalem Post, 30 de Dezembro de 2007, http://www.jpost.com/Israel/Reservists-benefits-package-approved; Anshel Pfeffer, New ‘bill of rights’ for student reservists, Ha’aretz, 24 de Dezembro de 2003: http://www.haaretz.com/print-edition/news/new-bill-of-rights-for-student-reservists-1.109580.">6

  • A Universidade de Tel Aviv está participando de uma pesquisa arqueológica colonialista no parque nacional da "Cidade de Davi", localizado no bairro de Silwan na Jerusalém Oriental ocupada, violando assim o direito internacional.8 Parte da descrição realizada por Sand detalha as cinco décadas de silêncio e negação da Universidade diante dos fatos ocorridos nesta expulsão."

Link para obter mais informações sobre a conferência: http://donotapplyhebrewu.wordpress.com/boycott-israeli-cinema-and-media-studies-conference-at-tel-aviv-university/

Nós propomos um boicote porque o vemos como uma obrigação moral e uma maneira de transformar nossas experiências em uma ação positiva. Isto era também a expectativa que um dos estudantes israelenses tinha sobre o resto do mundo.

Consequentemente, nós lamentamos e criticamos a nossa própria participação no Bus Film Project. O projeto é parcialmente patrocinado pelo KKL, uma organização dotada de uma ideologia que discordamos fortemente.

Por isso, apelo a todos os artistas e cineastas para boicotar eventos acadêmicos e culturais em Israel que não tomam uma posição ativa contra a ocupação. E também queremos incentivar colaborações e apoio às organizações israelenses e palestinas que trabalham ativamente contra a ocupação e para uma paz justa.

Ocupação da Palestina por Israel já se arrasta há 47 anos e está violando várias leis internacionais, resoluções da ONU e direitos humanos. Gaza tem estado sob cerco por 7 anos e sofreu vários ataques militares israelenses, que resultaram em milhares de mortes de civis e desastre humanitário. Nós todos somos responsáveis por opor e condenar a política de apartheid israelense e a opressão realizada contra p povo palestino, e acreditamos que o boicote, o desinvestimento e outras sanções sejam uma forma poderosa, importante e pacífica para fazer isso.

Onde está?
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Sarah Gampel, Animadora e realizadora

Anna Padilla, Documentarista