Concepção leônica rodrigal colorífera

Letícia Simões

CENA 05 A porta branca é aberta e a câmera adentra o quarto psiquiátrico: a câmera encontra Rimbaud e Baudelaire que estão jogando pôquer na cama e conversam. No colo de Rimbaud, o cachorro azul de pelúcia de RSL. Rimbaud parece uma criança indefesa. Baudelaire é austero. Os dois estão à espera dele chegar, o dono do quarto e companheiro de Rimbaud. Rimbaud não quer ficar sozinho e insiste para Baudelaire ficar – segundo ele, chegou um novo paciente, um ex-combatente do Vietnã e ele não quer ficar sozinho. Baudelaire se cansa de jogar pôquer e vai à janela: está um dia de sol. Rimbaud diz que está com fome e vai até a mini-geladeira branca. Quando abre, tudo que está ali dentro é vermelho: maçã, ketchup, pimentas, tomates. Rimbaud pega uma maçã e senta-se na cama. Baudelaire comenta do azul do céu daqui ser mais azul do que o dos outros lugares. (A câmera nunca sai do quarto; está sempre acompanhando os dois. Ou seja: não vemos realmente a cor do céu). Rimbaud reclama que Baudelaire está muito mau-humorado naquele dia e resolve dançar para ele a Dança do Pelicano Azul.

no início, era o documentário.

comumente falando:

no início, era o verbo.

no entanto, no caso de rodrigo de souza leão, este verbo é retrabalhado à exaustão: até virar tinta, até virar suzana vieira, até virar VHS, até virar webcam, até virar remédio enganosamente engolido e transformado em maraca para instrumento da banda eletro-espacial

noite de verão
gramados amarelo-punk
chaminés cuspindo
redondas formas
que poderiam ser
cachos de cabelo
círculos concêntricos
(mas que são
fumaça
do século
dezenove)
e o sol no quadro
na tela
e em posição
de sorriso
eterno fluxo
flutuante
inclusive crepúsculo

quem cria os museus? para que servem suas paredes? para quem esteve em casa por vinte e três anos, o mundo é o museu

no início, decerto & portanto, o museu

esta imagem veio surrupiada de uma flor; uma semente, para ser mais precisa, de me roubaram uns dias contados. após atingir a fama & a glória como o van gogh brasileiro, o rodrigo pintor concede entrevistas aos principais jornais e programas de televisão - ratinho incluso. aliás, quem imaginou um dia a participação do maior artista plástico do país em um teste de DNA com o seu sósia / replicante / fã? examinado em minúcias, o ácido comentário de rodrigo é uma proposta radical: vamos investigar a concepção criadora dos inspiradores e dos inspirados; há mesmo algo que fica na obra quando alguém levanta a mão para dizer - fulano de tal é a minha grande referência?. mas voltando ao tema principal - perdão, a tergiversação é um sólido costume por aqui -, com o ápice fulgurante de sua produção plástica, o governo brasileiro erige-lhe um museu.

Nomear
a porta é um rito
uma passagem para algo

o algo é o absurdo
ou o ocaso, concluo

o algo se imagina alguém
periga estar ou ser

há cerca de quatro semanas, cientistas debruçaram-se sobre uma aparição esfumaçal em torno do planeta marte. esta nuvem cinza havia dado seu etéreo ar da graça em outras décadas mas nunca com partículas douradas nem com um espichar tão largo. canadenses, ingleses, americanos, belgas e japoneses reuníram-se em torno dessa aparição de fuligem para supor significações para nós, reles mortais do planeta terra. uma das propostas (vinda da ásia) seria uma passagem para uma outra galáxia, desconhecida e inerte até então. a constatação de seu aumento através do século xx seria a constatação final: um dia ela há de nos devorar, via láctea & tudo o mais

o nosso museu, em uma conexão souza leonina espaço-tempo, era essa fumaça de galáxia. foram cinco salas que funcionavam como portas para o pensamento criativo de rodrigo:

a primeira, o museu no sentido institucionalizado da palavra

a segunda, um corredor florestal de poemas (as palavras iam se erigindo à medida em que o filme caminhasse - até dominar todas as paredes, do chão ao teto)

a terceira, o mundo da ESPACE, a empresa cenário em carbono pautado, o primeiro livro de rodrigo

a quarta, o hospital psiquiátrico onde rimbaud & baudelaire brigam pela atenção do nosso personagem

a quinta & última, a sala azul da memória (os sonhos, as projeções).

Realcoisacional
escrever poesia
é como se perder

perder-se em si
para sobreviver

não ouvir do silêncio
coisas tão verdade

que tão mais coisas
se tornem realidade

uma vez estabelecido o princípio de que, dentro do museu tudo é possível (o único plano externo no filme é a visão de quem olha pela janela mas nunca toca o chão), havia apenas o compromisso com a verdade de rodrigo

durante as semanas de filmagem adaptamos cenas, derrubamos personagens, fomos rejeitados por um dos entrevistados (ele adentrou a locação e questionou: mas que diabos de filme você estão fazendo? com a recusa de uma explicação lógica, catou seus papéis, deu meia-volta e foi-se embora). o objetivo com as entrevistas sempre fora:

provocar o encontro entre câmera, personagem e rodrigo

os entrevistados não sabiam do cenário onde seriam entrevistados nem a pauta das perguntas

(perguntas feitas também com as anotações pessoais de rodrigo)

somos todos personagens
somos todos sósias de nós próprios
onde está o teste de dna?

Ser perseguido por alucinações não é como ser perseguido por personagens, mas é parecido um pouco.
Você pensa uma coisa e é outra que acontece. As personagens têm vida própria?
Não sei. Personagens não são alucinações.
Pensamentos são entidades autônomas?
A gente fica parecido com os nossos pensamentos. Com as nossas personagens. Todas vocês se encontram em mim. Duvida disso?
Não. Esse é o segundo livro que sou personagem.
Vou te dar um fim melhor do que a morte. Mas você sabe que aqui todo mundo ressuscita, né?

anifesto videodrome

a escrita de rodrigo de souza Leão é uma escrita que torna a linguagem, os processos de linguagem, seu objeto principal. rodrigo não é um narrador convencional; está mais para um polifônico alquimista. um trabalho que mistura mundo interno e externo de maneira radical. um artista cônscio do caos. da impossibilidade de uma verdade ou lógica única. há tantas verdades quantas as que consigo inventar.

a escrita de rodrigo é o lugar da fragmentação, da ediçao, do descentramento, do desequilíbrio, da politopia, da velocidade, da dissolução do sujeito, da abstração. do recorte, da interferência - uma escrita sujeita ao mundo. uma escrita parte do mundo. uma escrita que tem o mundo como espinha dorsal da sua construção.

como transpor para a linguagem audiovisual essa estética, essa perseguição da linguagem? ora, perseguindo-a ainda demais. justapondo, mixando, colando. o pensamento de rodrigo efetuado sobre o papel será perseguido na tela.

assim, foi certeira a escolha pela estética videográfica. a mixagem de imagens mais do que a montagem de planos; a mescla de imagens; a sobreimpressão. um trabalho de imagem sobre imagem sobre imagem; uma busca por um espaço imagético fragmentado e múltiplo.

dessa forma, acreditamos que um documentário que tenha como espinha dorsal estes questionamentos cinematográficos possa ser de interesse ao festival, ultrapassando a esfera do personagem em si.

a nossa única obrigação era com o próprio rodrigo: como seria o filme feito por um escritor que se denomina metalinguante?

desse processo, veio tudo vai ficar da cor que você quiser.

Frases soltas da recepção em Toulouse

- este filme é um golpe, obrigado por esta porrada (a tradutora foi de soco, imagino que tenha sido algo mais agressivo) (de um senhor de uns 70 anos);

- é possível comprar o disco de rodrigo? sou um animal extinto: dono de uma gravadora punk na frança (deixo a cargo de vocês imaginar a pessoa);

- rodrigo me fez lembrar a minha juventude punk e agradeço por isso (mesma pessoa);

- mas ele morreu???? pelo final, achei que ele tinha sobrevivido e forjado o suicídio para parar de falar com as pessoas... (de uma adolescente de uns 15 anos);

- esse ritmo não me deixou respirar (da minha anja de guarda, nëith);

- não sei o que consigo falar pelas próximas horas; o filme tirou todas as minhas palavras (da amiga da anja de guarda, melissa, estudante de administração);

- a artificialidade com que vocês constroem a imagem é uma proposta estética diretamente ligada à artificialidade do mundo de rodrigo e poucos documentários de artista conseguem transpor para a imagem com tanta exatidão o que propõem no discurso. mas há muita ternura também. unir ternura & artificialidade num só filme não é fácil (de uma professora da ESAV, escola superior de audiovisual).

- qual o endereço desse museu? gostaria JÁ de comprar uma passagem para ir visitá-lo. { doeu um pouco o coração ter que dizer que inventamos o museu daquela seqüência }

dois dias depois, houve um encontro com alunos do ensino médio de uma escola rural nas franjas de toulouse. durante as férias, a universidade oferece diversos cursos livres e esta turma escolheu a de documentário. eles são oito, entre 15 e 17 anos, e são responsáveis por um dos prêmios de amanhã (que aqui é hoje).

eles realmente anotaram impressões sobre o filme e cada um tinha uma pergunta a fazer. { como toulouse, e toda a região dos médio-pirineus, têm uma identificação mais forte com a catalunha do que propriamente com a cultura francesa recorrente, quase todas as pessoas falam os dois idiomas; os alunos, por exemplo, têm aulas bilíngües. toda a conversa deu-se em espanhol }

mashup perguntas & comentários:

- por que você decidiu filmar dessa forma tão suja quando hoje em dia se pode filmar em 4K, 6K?

- bla bla bla explicação videoestética bla bla bla referência anos 80 bla bla bla VHS

- mas o que é um VHS?

PAUSA PARA: pegar um iPad, abrir no YouTube e mostrar a essa geração como eram as imagens há 30 anos atrás

- ahhhhhhhhhh, agora tudo faz sentido

- quem é a funcionária pública? foi que ela que provocou a crise de rodrigo?

- bla bla bla parte ficcionalizada de carbono pautado bla bla bla explicação do livro bla bla bla referências novelas brasileiras

PAUSA PARA: um dos garotos notou que Xarluz falava de uma maneira muito esquisita e queria saber se era uma língua inventada por rodrigo. (ponto para nós!)

& o melhor comentário do dia:

- eu achava que o documentário era só sobre realidade, a vida real, as coisas que acontecem. não sabia que no documentário a gente podia inventar. obrigada.