Visto da Janela1

Henri Lefebvre Tradução: Dalila Martins e Eduardo Liron

(Não! este título pertence a Colette2 — Eu escrevo: "Visto das minhas janelas, sobre um cruzamento em Paris, portanto, sobre a rua").

Barulho. Barulhos. Ruídos. Quando os ritmos ganham vida e, então, se mesclam, mal se distinguem. O barulho, caótico, não tem ritmo. Contudo, o ouvido atento começa a separar, a distinguir as fontes, a se aproximar delas apreendendo interações. Deixando de escutar os sons e os ruídos, se escutamos nossos corpos (não saberíamos como insistir mais sobre sua importância), nós não apreendemos (não ouvimos) normalmente nem os ritmos nem suas associações que, contudo, nos constituem. É somente no sofrimento que tal ritmo se destaca, modificado pela doença. A análise se aproxima da patologia, mais do que da habitual arritmia.

Para apreender e analisar os ritmos é necessário sair deles, mas não completamente: seja através da doença, seja através de uma técnica. Uma certa exterioridade permite o funcionamento do intelecto analítico. Contudo, para apreender um ritmo, é preciso antes ter sido apreendido por ele; é preciso deixar-se ir, doar-se, abandonar-se à sua duração. Como na música, na aprendizagem de uma língua (não compreendemos tão bem os sentidos e encadeamentos como quando conseguimos produzi-los, ou seja, produzir ritmos falados).

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Então para apreender este objeto fugidio, que não é exatamente um objeto, é preciso se situar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Uma sacada se presta admiravelmente ao propósito, em relação à rua, e este pôr-se em perspectiva (da rua) é que nós devemos à maravilhosa invenção das sacadas, e à do terraço, de onde também dominamos a rua e os transeuntes. Na falta desses, você poderia se contentar com uma janela, contanto que ela não dê para um canto escuro ou para um úmido pátio interior. Ou para um gramado sempre deserto.

Da janela aberta sobre a rua R.3 face ao célebre centro P.4, não é necessário reclinar muito para ver ao longe. À direita, o centro-palácio P., o Fórum, até o Banco da França (central). À esquerda até os arquivos. Perpendicularmente a esta direção, a prefeitura da cidade e do outro lado a Escola de Artes e Ofícios. Toda a Paris antiga e moderna, tradicional e criativa, ativa e preguiçosa.

Aquele que caminha na rua, logo ali, está imerso na multiplicidade de barulhos, de ruídos, de ritmos (inclusive aqueles do corpo, mas a este ele está atento, exceto no momento de atravessar a rua quando, então, ele precisa quase calcular o número de seus passos). Da janela, pelo contrário, os ruídos se distinguem, os fluxos se separam, os ritmos se correspondem. À direita, embaixo, um semáforo; no vermelho os carros param, os pedestres atravessam, um murmurinho, não, vozes confusas. Nós não conversamos ao atravessar um cruzamento perigoso, sob a ameaça das feras e dos elefantes prestes a nos avançar, táxis, ônibus, caminhões, diversos tipos de viaturas. Então, relativo silêncio nessa multidão. Um tipo de doce murmúrio, às vezes um brado, um chamado.

Então, quando os carros param, as pessoas produzem um ruído diferente: pés e palavras. Da direita à esquerda e vice-versa. E pela calçada da rua perpendicular. Sob o sinal verde, passos e palavras se detêm. Um segundo de silêncio e vem a arruaça5, o arranque de dezenas de carros, os ritmos dos automóveis ganhando velocidade o mais rápido possível. Correndo riscos: transeuntes à esquerda, um ônibus atravessado, outros veículos. Donde desaceleração e retomada (primeiro tempo: partida — segundo tempo: desaceleração para virar — terceiro tempo: retomada brutal, pé na tábua, a toda velocidade, exceto no congestionamento…). Notável o acordo entre aquilo que vemos e aquilo que ouvimos (da janela). Concordância estrita. Talvez porque o outro lado da rua esteja ocupado por uma imensa boutique apelidada com o nome que imortalizou um presidente, Beaubourg. Deste lado, os passantes e repassantes, numerosos e silenciosos, turistas e suburbanos, jovens e velhos misturados, solitários e casais, mas nada de carros diante da cultura. Depois do sinal vermelho, imediatamente vem a arruaça6 apressada das feras, pequenas ou grandes, monstruosos caminhões viram em direção à Bastilha, a maior parte dos veículos pequenos se precipita em direção à prefeitura. O ruído sobe, sobe em intensidade e potência, em volume, torna-se insuportável, mesmo que muito bem acompanhado pelo fedor de combustível. Então pára. Repassando7. Periodicidade: dez minutos. Durante a fúria dos automóveis, os pedestres se aglomeram, um coágulo, nódulos aqui e ali; o cinza domina, com manchas multicoloridas, e essas massas se desfazem no decorrer do curso. Às vezes, os automóveis estagnam-se no meio da passagem e os pedestres os contornam, como as ondas a uma pedra, não sem oprimir com olhares descontentes os condutores dos veículos mal posicionados. Ritmos duros: alternâncias entre silêncio e fragor, tempo ora quebrado ora escandido, impressionando aquele que de sua janela se põe a escutar, o que lhe surpreende mais que o aspecto heterogêneo das multidões.

Multidões heterogêneas, sim, turistas de países longínquos, Finlândia, Suécia, Portugal, os carros têm dificuldade de estacionar, consumidores vindos de longe, negociantes, amantes das artes ou das novidades, jovens suburbanos se debatendo entre as horas que dizem ser de pico, de modo que há sempre o mundo em torno dos enormes bibelôs metálicos; meninos e meninas avançam de mãos dadas, como que para se amparar diante desta amargura da modernidade, na exploração destes aerolitos caídos em meio à velha Paris, vindos de um planeta muitos séculos à frente do nosso, e completamente fracassados perante o mercado!… Muitos dentre estes jovens, caminham, caminham, sem trégua, dão a volta nos edifícios, no Beaubourg, no Fórum; são revistos diversas vezes, em grupos ou sozinhos; eles caminham incansavelmente mascando um chiclete ou um sanduíche. Eles só param para se espichar, sem dúvida esgotados, no pátio, nas galerias do Fórum de Chirac, ou mesmo nas calçadas da Fonte dos Inocentes, que não servem senão para este intuito. O barulho que perfura o ouvido não vem dos transeuntes, mas dos motores pisando fundo nos pedais. Nenhum ouvido, nenhum aparelho poderá apreender este conjunto, os fluxos de corpos, metálicos ou carnais. É necessário, para apreender os ritmos, um pouco de tempo, um tipo de meditação sobre o tempo, a cidade, as pessoas.

A este ritmo inexorável, que se atenua apenas de noite, se superpõem outros ritmos menos vívidos, mais lentos: a partida das crianças para a escola, algumas chamadas muito barulhentas, olhares penetrantes, gritos de reconhecimento matinal. Depois, por volta das nove e meia, a chegada dos consumidores, seguidos logo pelos turistas, sempre mais ou menos com de acordo com o mesmo horário, salvo exceção (tempestade ou campanha publicitária); os fluxos, os conglomerados se sucedem; eles encorpam ou afinam, mas sempre se acumulam pelos cantos para então abrir passagem, se enredar e desenredar no meio dos carros.

Estes últimos ritmos (alunos, consumidores, turistas) seriam um tanto cíclicos, em períodos largos e simples, ao seio dos ritmos mais vívidos; alternantes, em períodos breves, os automóveis, os moradores, os empregados, os clientes dos bistrôs. A interação dos ritmos diversos, repetitivos e diferentes, animam, como se diz, a rua e o bairro. O linear, em suma, quer dizer, a sucessão, faz-se de idas e voltas: ele se combina com o cíclico, os movimentos de período longo. O cíclico é a organização social que se manifesta. O linear é o trivial, o rotineiro, portanto o perpétuo, feito de acasos e de reencontros.

A noite não interrompe os ritmos diurnos mas os modifica, e sobretudo os ralenta. No entanto, mesmo às três ou quatro horas da manhã há sempre alguns carros diante do farol vermelho. Às vezes um deles, cujo motorista vem de uma noitada prolongada, avança o farol. Às vezes também, diante do farol e de suas fases alternadas (vermelho, amarelo, verde), não há ninguém, e o sinal não cessa de funcionar, no vazio, desesperado mecanismo social em marcha inexorável pelo deserto, diante das fachadas que dramaticamente declamam sua vocação de ruínas.

Quando uma janela se ilumina bruscamente, ou ao contrário, se escurece, o sonhador solitário se pergunta – em vão – se se passa uma cena de doença ou de amor, se é o gesto de uma criança que se levanta muito cedo ou de um insone. Jamais uma cabeça, um rosto, aparece nessas dezenas e dezenas de vidros. Exceto se há na rua alguma coisa acontecendo, uma explosão, um carro de bombeiros que se precipita perante uma mensagem de socorro. Enfim, a arritmia reina, salvo raros instantes e circunstâncias.

Da minha janela sobre pátios e jardins, a vista e a oferta de espaço são bem diferentes. Sobre os jardins, as diferenças dos ritmos habituais (cotidianos, então ligados à noite e ao dia) desvanecem; eles parecem desaparecer em uma imobilidade escultural. Exceto, evidentemente, o Sol ou as sombras, os cantos claros e os cantos sombrios, contrastes tão sumários. Mas olhe para estas árvores, estes gramados, estas plantações. Eles se situam sob seus olhos em uma permanência, em uma simultaneidade espacial, em uma coexistência. Mas olhe melhor e por mais tempo. Esta simultaneidade, até um certo ponto, não é senão aparente: superfície, espetáculo. Vá mais profundamente, cave sob a superfície, escute atentamente em vez de simplesmente olhar, de refletir os efeitos do espelho. Você percebe então que cada planta, cada árvore, em seu ritmo, é feita de diversos outros: as folhas, as flores, os grãos ou frutos, cada um a seu tempo. A ameixeira? As flores nascem na primavera, antes das folhas, a árvore foi branca antes de enverdecer. Mas nesta outra cerejeira, ao contrário, foram as flores que se abriram antes das folhas que sobreviverão aos frutos e cairão tarde no outono e não todas de uma vez. Continue e você verá esse jardim e os objetos (que não têm nada de coisas) polirritmicamente, ou se você preferir sinfonicamente. No lugar de uma coleção de coisas fixas, você seguirá cada estado, cada corpo, como tendo seu tempo por baixo de tudo. Cada um então tendo seu lugar, seu ritmo, com seu passado recente, um futuro próximo e um porvir longínquo.

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Enganadores, o simultâneo, o imóvel? Abusivos, o sincrônico, o palco, o espetáculo? Não e sim. Não: eles constituem, eles são o presente. A modernidade curiosamente expandiu, aprofundou e dilapidou o presente. A quase-supressão das distâncias e delays (pela mídia) amplifica o presente, mas esses meios não oferecem senão reflexos e sombras. Você assiste aos incessantes festejos ou massacres, você olha os cadáveres, contempla as explosões; os mísseis partem sob seus olhos. Você está lá!… Mas não, você não está lá; seu presente é composto de simulacros; a imagem diante de você simula o real, o caça não está lá, e a simulação do drama, o momento, não tem nada de dramático, senão no verbal.

O que mostra a janela aberta sobre uma das ruas mais vivas de Paris, o que parece espetacular, será este sentimento de espetáculo? Atribuir esse caráter um pouco pejorativo a essa visão (como traço dominante) seria injusto e passaria ao largo do real, quer dizer, do sentido. Os traços característicos são verdadeiramente temporais e rítmicos, não visuais. Liberar, escutar os ritmos demanda uma atenção, com um certo tempo. Caso contrário, só de relance serve para entrar no rumor, nos barulhos, nos gritos. O termo clássico da filosofia, "o objeto", não convém ao ritmo. "Objetivo"? Sim, mas transbordando o quadro estrito da objetividade de modo a lhe proporcionar a multiplicidade de sentidos (sensoriais e significativos).

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A sucessão das alternâncias, das repetições diferenciais, sugere que em algum lugar desse presente há uma ordem, que vem de fora. Que se revela. Onde? Nos monumentos, nos palácios, dos Arquivos ao Banco da França, meteoros caídos de um outro planeta em meio centro popular, abandonados há tanto tempo, A Corte dos Milagres8, lugar de patifes. Portanto, ao lado do presente, um tipo de presença-ausência, mal localizada e potente: o Estado, que não se vê da janela, mas se pressente neste presente, o Estado onipresente.

Do mesmo modo que o além do horizonte, se pressentem sem estar presentes outros horizontes, além da ordem sensível e visível, que revela o poder político, outras ordens se adivinham: uma lógica, uma divisão do trabalho, os lazeres também são produzidos (e produtivos) ainda que os proclamemos "tempos de liberdade" ou mesmo "livres". Mas esta liberdade, não é também ela um produto?

Os objetos secretos também falam, à sua maneira, lançando uma mensagem. O Palácio grita, urra, mais forte que os automóveis. Ele grita: "abaixo o passado! Viva o moderno! Abaixo a história, eu a engoli, digeri, restituí…". Ele tem como perpétua testemunha e prova o guarda de trânsito no cruzamento, a Lei e a ordem, e se qualquer um o ultrapassa, sabe que será detido, repreendido pelo apito, multado, de tal modo que este guarda solitário induz o discurso da Ordem mais e melhor que as fachadas do Palácio e o cruzamento. A menos que ele não induza também o discurso anarquizante, pois ele está sempre lá, e é pouco útil; o medo do acidente mantém a ordem nos cruzamentos mais eficazmente que a polícia. Então aquela presença não subleva protesto algum, cada um sabendo de antemão de sua inutilidade.

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As lições da rua estariam esgotadas, defasadas, assim como os ensinamentos da janela? Certamente não. Eles se perpetuam ao se renovarem. A janela sobre a rua não é um lugar mental, de onde o olhar interior acompanha perspectivas abstratas; lugar prático, privado e concreto, a janela oferece vistas que são mais que espetáculos; perspectivas mentalmente prolongadas. De modo que a participação no espetáculo leva à explicação do espetáculo. A familiaridade o conserva; ele desaparece e renasce, com a cotidianidade de dentro e de fora. Opacidade e horizontes, obstáculos e perspectivas se implicam porque se complicam, se imbricam até permitirem entrever ou adivinhar o Desconhecido, a cidade gigante. Com seus espaços diversos afetados por tempos diversos: os ritmos.

Uma vez determinadas as interações, a análise continua. Neste emaranhado, neste andaime há uma hierarquia? Um ritmo determinante? Um aspecto primordial e coordenador?

A janela sugere diversas hipóteses que a rua e a errância confirmarão ou invalidarão. Os corpos (viventes, humanos, mais alguns cachorros) que se agitam lá embaixo, o conjunto fervilhante devastado pelos automóveis, não impõem uma lei? Qual? Uma ordem de grandeza. As janelas, as portas, as ruas, as fachadas, se medem em proporção à altura humana. As mãos que se agitam, os membros, não se resumem a signos, ainda que lancem múltiplas mensagens. Mas há uma relação entre estes fluxos físicos de gestos e a cultura que se mostra (e urra) no enorme rumor do cruzamento? Os pequenos restaurantes da rua R., as lojas, estão em escala humana, como os transeuntes. Em frente, as construções querem transcender esta escala, sair das dimensões conhecidas e também de todo modelo passado e possível; donde a exibição do metal, da tubulação congelada, os reflexos mais duros. E é um meteoro caído de um planeta onde reina uma tecnocracia sem entraves…

Absurdo? Ou suprarracional? O que dizem estes estranhos contrastes? O que cochicha a proximidade de um certo arcaísmo ligado à história e a supermodernidade exibida? Ela tem um segredo — ou segredos? A ordem político-estatal se escreverá neste cenário, com a assinatura do autor? Sem dúvida, mas isso não nos permite esquecer que a época e o tempo também se inscrevem nesta espetacular encenação, lhe dando um sentido. E por quê a rua da Truanderie e a passagem dos Ménestriers foram conservadas atravessando os transtornos9?

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O essencial? O determinante? O dinheiro. Mas o dinheiro não se encontra mais sensível como tal, mesmo na fachada do banco. Este centro de Paris traz a marca do que ele esconde, mas ele o esconde. O dinheiro passa por circuitos. Há pouco tempo, este centro capital mantinha qualquer coisa de provinciano, de medieval: histórico e decaído. Quantas discussões e projetos para esses lugares predestinados ou abandonados! Ainda que rentáveis e por tanto tempo! Tal projeto amável e charmoso — tão século XVIII — assinado por Ricardo Bofill — foi descartado após aprovação. Tal outro projeto que fazia do centro de Paris o centro administrativo (ministérios) seduziu, ao que parece, o chefe; sua desaparição acarretou também à do projeto. E tentam um acordo entre os poderes: o Estado, o dinheiro, a cultura. As vitrines para todos os produtos, incluindo os intelectuais, corrigindo os dissabores pelas imagens tão Belle époque.

Como se faz para a gente (como dizemos depois que certas palavras, o "povo", ou os "trabalhadores", perderam qualquer prestígio) aceitam este mostruário? Que venham em multidões, em fluxos perpétuos? De modo que os ritmos das passagens enfraqueçam ou se reforcem, mas se encadeiem e não desapareçam jamais (mesmo à noite!).

O que é que os atrai a este ponto? Eles vêm simplesmente para ver? Mas o quê? A grande construção que foi concebida não para ser vista, mas para deixar ver? Ora, vêm para vê-la, e lançar um golpe de vista distraído sobre o que ela expõe. Girar em torno desse vazio, que se preenche de coisas e de pessoas para depois se esvaziar e assim por diante. Não viriam elas, essas pessoas, sobretudo para se ver, se encontrar? A multidão tomaria inconscientemente uma consciência de multidão?

A janela responde. Primeiramente o espetáculo do cruzamento e as ruas perpendiculares que, em breve, formarão um bairro da Cidade, povoado por uma espécie de nativos, com muitos artesãos, pequenos comércios. Logo: as pessoas do bairro. Os restantes habitam os casebres, as malocas, com vizinhos chineses ou árabes. A produção abandonou estes lugares, mesmo a parte do comércio que pressupõe depósitos, armazéns, estoques, grandes escritórios. Nada se pode dizer sobre esses feitos, super conhecidos, que vá além de suas consequências. Por exemplo: a multidão, as massas no pátio de Beaubourg, ao redor de Saint-Merri medieval ou na Place des Innocents10, onde será mais fácil dizer que ela perdeu toda sua inocência. As praças recuperaram sua antiga função, há muito tempo moribunda, de reunião, de encenação, de teatro popular espontâneo.

É aqui que sobre o átrio irrompe uma festividade de aspecto medieval, entre Saint-Merri11 e o Modernismo: engolidores de fogo, malabaristas, encantadores de serpente, mas também, oradores e assembléias de protestos12. A abertura e a aventura ao lado das blindagens dogmáticas. Todos os jogos possíveis, materiais e espirituais. Impossíveis de classificar, de contar. Sem dúvida, muitos errantes-aberrantes que procuram, sem saber o quê — eles mesmos! Mas muitos que não procuram senão esquecer de seus cantos, nem cidade, nem campo. E por horas e horas eles caminham, reencontrando os cruzamentos, girando em torno dos lugares fechados e cerrados. Eles quase não param, comem um hot-dog qualquer enquanto caminham (rápida americanização). No pátio, às vezes param de caminhar, olhando fixamente para a frente; eles não sabem mais o que fazer. Olham, escutam um pouco os camelôs, depois retomam a caminhada incessante.

Lá no pátio, os ritmos têm algo de marítimo. Correntes atravessam as massas. Arroios se soltam, trazendo novos assistentes ou os carregando de volta; alguns vão em direção à goela do monstro que os engole para lhes vomitar logo em seguida. A maré invade a imensa praça, e então se retira: fluxo e refluxo. A agitação e o barulho são tais que os residentes se queixaram. Hora fatídica: dez horas da noite, barulhos interditos; então a multidão se torna silenciosa, calma mas mais melancólica; Ó fatais dez horas da noite! O espetáculo e o rumor param, resta a tristeza.

Com esses lugares nós estamos no cotidiano ou no extra-cotidiano? Bem, um não exclui o outro, e a pseudo-festa não difere senão aparentemente do cotidiano. Ela o prolonga por outros meios, com uma organização aperfeiçoada que reúne tudo — publicidade, cultura, artes, jogos, propagandas, regras de trabalho, vida urbana… A polícia faz vigília, vigia.

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Ritmos. Ritmos. Eles revelam e dissimulam. Muito mais diversos que os musicais, ou o código dito civil das sucessões, textos relativamente simples, comparados à cidade. Ritmos: música da Cidade, palco que se escuta, imagem no presente de uma soma descontínua. Ritmos percebidos através da janela invisível, perfurada no muro da fachada… Mas junto às demais janelas, ela é também em um ritmo que lhe escapa…

Nenhuma câmera, nenhuma imagem ou sequência de imagens pode mostrar estes ritmos. Faltam olhos e orelhas igualmente atentos, uma cabeça e uma memória e um coração. Uma memória? Sim, para apreender este presentede de outro modo que não num instantâneo, o restituir em seus momentos, no movimento em ritmos diversos. A lembrança de outros momentos e de todas as horas é indispensável, não como uma simples referência, mas para não isolar este presente e vivê-lo em toda sua diversidade feita de sujeitos e objetos, de estados subjetivos e de figuras objetivas. Aqui retorna a velha questão filosófica (o sujeito e o objeto e suas relações) posta em termos não especulativos, próximos da prática. O observador à janela sabe que ele toma por primeira referência o seu tempo, mas que a impressão primeira se desloca e compreende os ritmos mais diversos, sob a condição de que eles permaneçam em escala. A passagem do sujeito ao objeto não exige nem um salto por cima de um abismo, nem a travessia do deserto. Os ritmos precisam sempre de uma referência; a inicial persiste, através de outros dados percebidos. A tradição filosófica levantou problemas semi-reais, semi-fictícios, que resultaram mal ao permanecer na ambiguidade especulativa. O olhar e a meditação seguem as linhas de força que vêm do passado, do presente, do possível, e que se reúnem no observador, ao mesmo tempo centro e periferia.

Aqui como acolá, os opostos se encontram, se reconhecem, em uma unidade mais real e mais ideal ao mesmo tempo, mais complexa que estes elementos já contados. Isso precisa e atualiza o conceito de pensamento dialético que não cessa de povoar essas páginas, com muitas questões e algumas respostas!