Gênero e educação

processos cis e trans de autodesignação identitária e de leitura expressiva

Dodi Leal

A primeira pergunta fundamental para o raciocínio proposto neste texto é: quais são as forças que atuaram (e atuam) sobre o processo constitutivo de se reconhecer uma mulher e/ou um homem. Em outras palavras, se você é mulher, o que te define ou te definiu como mulher? Se você é homem, o que te define ou te definiu como homem? Nossos processos de formação e socialização estão baseados numa maneira compulsória de constituição dos gêneros que, veremos, chama-se cisnormatividade.

As formas identitárias ocidentais de gênero se constituíram e se legitimaram ao longo de séculos de história sedimentando dois arquétipos básicos, portanto, binários: homem e mulher. Foram processos extremamente complexos compreendendo inclusive e, sobretudo, mecanismos de dominação de um gênero sobre outro. Ou seja, o conjunto referencial simbólico acumulado por nossa/os antepassada/os e dos quais dispomos hoje são baseados em formas que se tensionaram, e se tensionam, dentro de contexto de desigualdade. Quando compreendemos as camadas de classe, raça e geracão (entre outras) como marcadores que se interseccionam com gênero, percebemos que as dominações do feminino pelo masculino se dão conjuntamente e reforçado por preconceitos, como os socialmente conjecturados da branquitude sobre a negritude, da riqueza sobre a pobreza, da vida adulta sobre a vida de pessoas velhas ou crianças, etc.

Um olhar mais atento nos fará, no entanto, questionar a percepção de que vivemos em modelos de gênero (e demais marcadores) que são binários. O unarismo (neologismo que deriva a noção de binarismo para a forma do unitário) implica na existência dos grupos hegemônicos e um processo de afirmação dos grupos oprimidos, ou seja, os conjuntos segundos, preteridos. Constantemente em curso e com desdobramentos históricos que ainda não podemos dimensionar o alcance no futuro, esses grupos oprimidos ainda formam segundas referências simbólicas. Em outras palavras, é um equívoco falar que vivemos numa sociedade binária de gênero sendo que o feminino não foi devidamente afirmado e ainda não alcançou os mesmos patamares sociais, políticos, simbólicos, econômicos e afetivos de que o masculino dispõe hoje. Assim se dá provavelmente com os demais marcadores: é muito recente que as lutas por reconhecimento de grupos não hegemônicos1 começam a ganhar visibilidade.

Um erro decorrente daí, que vamos falar um pouco mais adiante, é a compreensão de que o não-binarismo seria um novo gênero. Veremos que as formas não cis são todas trans. Mas para isso precisamos falar agora das transgeneridades retirando-as do exclusivismo de terceiros e mostrando a sua abrangência performativa que tem muito mais abrangência do que o Estado brasileiro2 nos leva a pensar. Para isso precisaremos requalificar, também, tudo que sabemos sobre sexualidade.

Tudo que sabemos sobre sexualidade, tudo que foi desenvolvido até aqui em termos de processos identitários de resistência e luta por direitos, tem seu valor histórico mas já não dá conta das complexidades de gênero que estamos inventando. Assim, não faz mais sentido a afirmação LGBT, nem a LGBTQIA+, muito menos TT. A primeira coloca lado a lado formas de sexualidade com as transgeneridades (como se fossem diferentes!), a segunda que, diz-se, soma-se uma letra nova por dia, diz sobre como estamos aumentando a compreensão sobre a diversidade das performatividades trans e as dimensões de sexualidade: sim, são todas trans! A última, TT é a maior anomalia corroborada pelo Estado brasileiro que, ainda com subversões de luta do movimento trans, corrobora a noção de que há uma diferenciação entre pessoas trans. Ou seja, ao nomear o binômio travestis e transexuais estamos cometendo, pelo menos, dois erros graves. O primeiro: diferenciar o corpo trans. De fato, travestis nunca obtivemos o reconhecimento do Estado sobre sermos trans porque supõe-se que a noção verdadeira das transgeneridades é aquela que corrobora o pacote do SUS: não apenas ter passibilidade cis, hormonizar-se, fazer mastectomia ou pôr silicone, mas sobretudo inventar um discurso que corrige um erro de nascimento. Faz-se, assim, a legitimação de um discurso de que ser trans está exclusivamente ligado a um processo de modificação corporal. O segundo erro é a própria utilização do termo transexual. Esse, completamente imbricado numa noção patológica do corpo trans, supõe que ser trans diz sobre sexualidade, não gênero. Além disso, utilizar o termo transexual em nada ajuda para compreender gênero de um modo performativo, já que não há cabimento na noção de cissexualidade como oposto de transgeneridade. Em resumo, uma pessoa travesti não é diferente de uma pessoa transgênera no que se refere aos modos subjetivos e sociais de performatividade de gênero. Pelo contrário, travesti é uma forma cultural, exclusivamente brasileira, de se elaborar as transgeneridades.

Bom, é preciso dizer que nos conteúdos de sexualidade, por uma questão de resistência, sempre houveram noções de transgeneridades. Toda vez que se afirma bixa, sapatão, afeminado, caminhoneira, etc, estamos nos referindo a conteúdos trans. O que impede a sociedade de nomear os conteúdos trans, então, nessas formas já conhecidas e difundidas no dia-a-dia? O mito da transexualidade. Não ver a viadagem como um processo transgênero é sintoma de um Estado que controla o corpo trans e vai dizer quem deve portar o verdadeiro feminino e o verdadeiro masculino. A dizer: as pessoas que se submetem aos processos de correção corporal e, lembremos, à afirmação discursiva de que transicionar gênero é corrigir para uma cis-normalidade.

Até aqui estamos afirmando, com contundência e ousadia, que há muito mais pessoas trans no mundo do que se imagina. Mas não só isto. Também estou dizendo a você, leitor/a, professor/a, educando/a, que você pode ser (é) trans.

Vamos lá, retornando à pergunta inicial: você é uma mulher apenas porque te disseram desde o teu nascimento que você era uma mulher e ainda continuam dizendo? Ou você é um homem porque te disseram desde o teu nascimento que você era um homem e ainda continuam dizendo? Provavelmente não só porque te disseram e porque continuam a te dizer que você é um homem ou uma mulher (numa perspectiva cis), mas sobretudo porque você passou a se dizer que é um homem ou uma mulher porque a sociedade te lê assim. A sociedade te quer assim. A sociedade te quer cis. É por isso que quem é cisgenerificada compulsoriamente como mulher (seja as mulheres cis, seja os homens trans), têm os atributos expressivos e identitários do masculino reprimidos. É por isso que quem é cisgenerificado compulsoriamente como homem (seja as mulheres trans, seja os homens cis), têm os atributos expressivos e identitários do feminino reprimidos.

E se todas as pessoas vivas nesse momento no mundo, 7 bilhões, fossem trans? E se todas as pessoas vivas nesse momento no mundo fossem mulher? Ambas são possíveis.

Esta provocação fala sobre uma grande convocação da sociedade para inventarmos juntas as mulheridades na sua mais ampla diversidade. Da mesma maneira, precisamos inventar conjuntamente as transgeneridades nos planos simbólico, cultural, social e político.

Então, indo de encontro aos fazeres da educação do cotidiano, não cabe mais (nunca coube!) partir de uma cisgenerificação compulsória das pessoas e do conhecimento. Muito menos reduzir o processo de formação de gênero ao órgão genital. A cisgeneridade foi e está sendo performada hegemonicamente até aqui. Mas ela se dá de uma forma a naturalizar esse processo performativo. É comum discursos como 'nasceu menino', 'nasceu menina' e até mesmo 'nasceu menino e quando cresceu virou mulher' e seu correspondente: 'nasceu menina e quando cresceu virou homem'. Primeiro erro dessas noções: não se nasce com um gênero. Este é imposto em função do órgão genital, no que estamos chamando, repito, processo de cisgenerificação compulsória. Segundo erro: supõe que a transgeneridade não acontece ou não pode acontecer na infância. Este, mais um sintoma do adultocentrismo.

Professor/a, há muitos assuntos mais, nestes contextos, que merecem cuidado e formação extensa. Recomendo a leitura de dois textos, ambos disponíveis em meio digital e gratuito. O primeiro chama-se Opressão e conflito: dilemas de não-violência para abordar a poética de gênero no teatro, nele trato de conceitos como alteridade, empatia, simpatia, gênero, sexualidade, conflito, opressão, expansão e transformação. Muitos deles são confundidos no senso comum e proponho discernimentos que mudam firmemente os operadores que usamos no nosso trabalho cotidiano. O segundo chama-se A desnaturalização da cisgeneridade: impasses e performatividades, que escrevi em parceria com João Mostazo e aborda justamente a maneira como as cisgeneridades são tidas como um processo natural, invisibilizando os seus processos performativos que se constituem, assim como as transgeneridades, entre os campos subjetivo e social.

Tenho dado cursos e palestras por todo o Brasil e Portugal colaborando na compreensão destes tópicos tão pouco estudados e tão vulgarizados pela sociedade ocidental. Recomendo verem o meu canal do YouTube DE TRANS PRA FRENTE, onde semanalmente posto uma entrevista com uma pessoa transgênera contando diversos desafios e compartilhando saberes tão importantes para nossas relações em sociedade mas que, ainda, são pouco difundidos.

O convite se extende para, além de buscar mais materiais, permitir-se interrogar sobre si e sobre as pessoas que estão à sua volta. Tenha coragem de enxergar a transgeneridade que acontece (ou se reprime) em você, não só no seu corpo, mas no seu processo subjetivo e social. Não pense que uma pessoa deve, individualmente, designar-se trans para ser reconhecida trans. Muito menos pense que trata-se de um processo que deve derivar de uma consulta psicológica. Tenha a coragem de nomear a transgeneridade em uma pessoa onde a transgeneridade é reprimida. Essa pessoa pode ser você mesma/o. Um assunto que deve ser desdobrado em um próximo momento: se qualquer pessoa pode ser trans, inclusive você, o que lhe impede de ler as transgeneridades em pessoas que as expressam ou de se identificam com elas? Não há autodesignação de gênero que não esteja embrenhada de processos sociais.